O desmame ideal

por Flávia Penido em 27/09/2009 na categoria Artigos Depoimentos
Flávia e Lais

Flávia e Lais

Lais já vai chegando perto de seus dois anos. Totalmente apaixonada por meus peitos. Ela não pode me ver sentada que pede mamá. Faz carinho no meu seio, nos meus cabelos cada dia mais brancos… Quando satisfeita, recolhe meus seios debaixo da camiseta e faz carinho, afirmando que terminou. Acontece que eu andei meio cansada, andei insatisfeita, porque se eu digo “depois”, ela fica muito infeliz, não compreende e não desiste. Fui descurtindo a amamentação, mas minhas amigas sempre dizendo pra não desistir. Eu fui levando, meio sem saber, na manha de quem sabe que mulher é feita de luas, entra uma, sai outra, e a vida segue outros rumos. Esses dias, amanheci fortalecida e disse:

- “Pois sim, vou começar agora!”

Você me entendeu mal amiga, não falo do desmame, mas de pôr limite. Uma relação tem que estar confortável para todos, não basta apenas um feliz, tal foi minha convicção. Na hora H, eu, com todo cuidado, expliquei que o mamá estava guardado para mais tarde. Minha filhota olhou pra mim, fez cara de rogada e deu um puxão na minha blusa:

- Mamá!!!

Agarrou meu peito com se fosse sua reliquia, me deixando arrebatada diante de tamanha obstinação:

- Está bem…

Não me senti vencida, nem oprimida! Eu dei foi muita risada, porque sei que ela não larga o osso facilmente. Não será de uma hora para outra as mudanças que estou imprimindo na nossa relação, mas elas serão, elas virão com o passar dos dias. Hoje já está bem mais fácil do que ontem pedir um tempo. Amanhã ela terá aceito que os tempos mudaram, pois tantas luas passaram, e não somos mais as mesmas. Crescer é um processo, tanto para os pequenos, como para nós, mães de poucas ou de várias viagens como eu.

Para mim, amamentar é um imenso prazer. Eu adoro essa conexão, essa relação de interdependência que se cria entre nós. E na hora de mudar essa relação, tem muitas questões a serem levadas em conta. O desmame ideal… eu andei os últimos meses me perguntando como é o desmame ideal. Qual a forma e momento ideal de desmame? Qual mãe nunca ouviu um …”Deus me livre essa boca cheia de dente! Você não tem medo dela morder seu peito??” Dureza aguentar todo mundo dando palpite!!!

Minha bebê foi crescendo e eu até perdi a conta dos comentários. “Essa CRIANÇA ainda mama no peito, mãezinha? Ainda tem alguma coisa aí? Mas isso é só um agrado, um mimo, não serve pra mais nada! Vixi, isso ai vai precisar de psicólogo quando crescer, tão grande, mamando desse jeito!” Essa ultima, sem dúvida, foi a frase mais engraçada, visto que eu mesma sou psi! Eu, que nem dou ouvidos aos outros, dizia com o maior orgulho: Nós somos viciadas!

Eu hoje acho que o desmame é uma decisão da mãe com seu filho, mais ninguém tem o direito de emitir opinião sobre isso. Alguém fala alguma coisa sobre a forma com que você beija e abraça teu parceiro? Por que a amamentação desperta tantos comentários, como se fosse uma decisão de domínio publico? O controle social quanto à amamentação é imenso. Se a mulher não amamenta, ela é massacrada. Se ela prolonga a amamentação, ela também o é!!

Muitas vezes me se senti cansada e pedi opinião e ajuda dos outros. Mas eu procurei dar ouvidos às mulheres que pensam como eu. Poucas pessoas apoiam uma mulher a amamentar seu filho depois de um ano, quem dirá depois dos dois anos. Mas quantas pessoas já leram realmente sobre os benefícios da amamentação prolongada, se informaram sobre as recomendações de órgãos que estudam esse assunto? Quantas mulheres foram encorajadas a falar do espantoso poder de cura que a amamentação tem para as crianças pequenas?

Quando eu comecei a pensar em desmame com minha filha caçula, eu li a respeito em vários sites e comunidades do orkut. Foi engraçado, por que no fim das contas, aquilo tudo que eu li parecia estranho a mim. Com o passar do tempo, fui criando em minha mente uma ideia de como queria que o desmame de minha filha acontecesse. Eu mesma já estava começando a desejar uma nova fase na minha vida e fui me deixando preencher aos poucos por essa novidade. A maternidade e tudo que se relaciona a ela tomou conta de mim nos ultimos nove anos de forma transformadora e agora algo novo se movia em mim, como uma necessidade de dar passos diferentes, novos vôos.

Eu fiquei sonhando com a Lais ir por ela mesma se desinteressando, já que a vidinha dela já tinha tantas outras atividades mais interessantes. Depois de vários meses de conversas com ela sobre o assunto, foi rolando muita confiança de que ela entendia o que eu dizia. A Lais sempre insistia em mamar e mamar, sempre e a toda hora, apaixonadíssima pelos meus seios. Eu deixava rolar. Eu fui levando em conta muitos fatores, e me liguei na minha intuição. De alguma forma eu sentia que saberia o momento para esse desmame.
Assim, fui levando por vários meses, considerando as luas que passavam, o desenvolvimento emocional da minha filha, meu bem estar, e a harmonia da família toda.

O desmame não foi ideal, por que o ideal vive somente no mundo das idéias. O desmame da Lais não foi perfeito, por que onde há prefeição, eu me sinto mais imperfeita. O desmame da Lais foi tranquilo, como a lua que refletia no mar naquela noite, foi do jeito que nós duas juntas poderíamos fazer, e no momento em que nos sentimos capazes de enfrentar uma mudança tão fantástica como esta.

O desmame de uma criança de mais de dois anos não é como desmamar um bebê. Foi um desmame em conjunto, uma decisão em comum acordo. Quem tomou a atitude fui eu, porém, nós demos os passos juntinhas, uma apoiando a outra. Uma cedendo, quando a outra já não podia ceder. Quando eu disse que chegávamos ao fim, ela protestou sem choro, sem sofrimento. Eu senti que ela já esperava por esse momento, ela já estava mesmo pronta para enfrentar a mudança. A harmonia foi intensa. Foi no dia seguinte a única vez em que ela chorou, tristinha, sentindo falta do mamá, então, eu permiti que ela mamasse, foi uma mamada com muito respeito da parte dela. Para mim foi um grande alívio, porque meu seio doía, de tão cheio. Foi também a ultima vez em que ela mamou, por que daí em diante ela não mais reclamou. Ás vezes ela pedia para ver o mamá, passava a mãozinha com carinho e dizia que estava quente e sorria. O mais lindo sorriso que ela tem. Foi uma passagem tranquila para uma nova fase da nossa relação de amor de mãe e filha.

Deixo assim essa fase da maternidade de gerar, gestar, parir, amamentar. Uma nova lua se apresenta para mim, brilhando imensamente. Não que eu não tenha saudades de tudo que vivi nesses anos tão intensamente, não que eu não sinta insegurança no que tenho por vir. Porém, segura de que vivi plenamente a lua que estou deixando passar.

Flávia e Lais

* O texto trata-se de uma coletânea de dois depoimentos de Fávia Penido, originalmente entitulados “Amamentar é uma arte de amor” e “O desmame Ideal”.

Comentários

Michele 28 de setembro de 2009 às 11:07

Poxa.. parabéns, muito emocionante o depoimento!

Maria Emília 28 de setembro de 2009 às 13:25

Poucas vezes gostei tanto de um texto. Obrigada. Parabéns.

Priscila Cavalcanti 29 de setembro de 2009 às 19:46

Adorei o texto! Me deu vontade de postar um sobre os benefícios da amamentação prolongada.
E seus cabelos são lindos!
beijos da Pri (PPzete)

Evilin 16 de outubro de 2009 às 16:01

Parabéns!Me emocionei muito com o depoimento. Pois a minha filha Mariana, que é a minha vida, esta com 2 anos e 2 meses e estou começando todo o processo de desmame, com muita paciência e todo amor do mundo.

Tiffany 26 de outubro de 2009 às 15:44

Flávia, a leitura do seu depoimento aqui no portal, assim como nos posts em seu blog, me serviram como alento ao coração e a mente exauridos por tanta cobrança para o fim da amamentação aqui em casa. Meu filho está com 1 ano e 9 meses e caminhamos neste processo há vários… parabéns pelo texto. Um abraço.

Desmamar o bebê, quando e por que? | Blog da Ti: mãe, mulher 26 de outubro de 2009 às 17:02

[...] Pra mim, amamentar é um imenso prazer. Eu adoro essa conexão, essa relação de interdependência que se cria entre nós. E na hora de mudar essa relação, tem muitas questões a serem levadas em conta. O desmame ideal… eu andei os últimos meses me perguntando como é o desmame ideal. Qual a forma e momento ideal de desmame? (por Flávia Penido em Maternidade Consciente) [...]

DAIANE 16 de novembro de 2009 às 14:49

ADOREI,ESTOU VIVENDO ESSE MOMENTO COM MEU CORAÇAO PARTIDO,MEU FILHO TEM 1 ANO E 8 MESES E TAMBEM E VICIADINHO NOS MEUS SEIOS, TENHO MUITO Dó PORQUE ELE NAO TOMA OUTRO LEITE PORQUE TEM ALERGIA A LACTOSE!

Bianca Vieira 13 de janeiro de 2010 às 15:28

Meu Deus, que coisa linda!
Chorei lendo este depoimento!
Meu filho acaba de fazer um ano e existe uma enorme pressão para que eu pare de amamentar, inclusive do pediatra.
Ele se alimenta bem mas, toma mamadeira, mas mama no peito a noite quando eu chego do trabalho, várias vezes.
Tenho pouco leite, mas ele adora e eu só consigo fazer ele dormir na teta, até quando acorda na madrugada, que é bem raro.
Queria amamentar mais tempo pq sei que nós dois vamos sofrer com o desmame, nem sei se eu não vou sofrer mais do que ele.
Já li em alguns lugares que devo amamentar somente até um ano e em outros até dois anos.
Estou um pouco confusa mas o depoimento me ajudou muito.

Iza 20 de janeiro de 2010 às 8:11

Estou emocionada!
Um abraço carinhoso de uma mãe que vive a mesma situação, com sua filhinha que já tem mais de dois anos e, para meu “deleite”, mama intensamente… Se Deus quiser, a passagem para a nova fase será também natural, linda e tranquila.

Luciana 8 de fevereiro de 2010 às 16:36

Muito bonita a mensagem! Tenho um bebê de um ano e oito meses e estou na luta para ele parar de mamar, não está sendo nada fácil, pq quando nego o mamá para ele, ele chora, grita e até me bate, sinto que a hora para desmamá-lo é agora, mais ele resiste muito, fico muito chateada pq ele adora mamar, passa o bico do meu peito nos olhos, no nariz, na orelha, e sorri… é um calmante para ele mamar. Vejo algumas formas de desmame em que podemos passar algo com gosto ruim nopeito para eles não quererem mais, mais não encontro coragem para tal atitude. Gostaria queo desmame acontecesse de forma calma e natural, pq amo meu menininho e não quero que ele sofra.

Amano Bela 8 de fevereiro de 2010 às 20:38

Oi Luciana!

Procure dentro de você a solução para essa “luta”. Não tem que ser uma luta. Às vezes a sensação de luta e as dificuldades surgem em função de uma ansiedade e expectativa intensa em relação a como a situação deve ser. Muitas mães que querem respeitar o processo de seus bebês sentem-se assim ao lidar com o desmame. O depoimento da Flávia ajuda exatamente a ver que as coisas podem acontecer de outra forma. Como todo processo de mudança, existe um período de adaptação quando uma nova fase da vida surge à sua frente, é uma grande mudança, para mãe e filho. Procure se observar mais a fundo neste processo que também é seu, não apenas dele, e veja se algo vai mudar no comportamento de seu bebê. Mãe e filhos são muito conectados, e as crianças sentem o que se passa com a mãe também. As mães costumam projetar muito nos filhos, muito do que se vê neles fala do seu universo também, pois passa pelo filtro de sua percepção, suas crenças, suas emoções e padrões. Se tudo dentro de você estiver mais claro quanto ao desmame, sem culpa, sem frustração, sem dor, o bebê vai sentir isso de alguma forma e isso vai se manifestar no comportamento dele. Quando digo claro, não é apenas no nível racional, mas especialmente clareza de sentimentos, deixar que eles surjam, reconhecer o que se sente e então deixar ir aquilo que já não cabe mais a esse momento, para que se abra espaço para o novo. Experimente olhar pra dentro de você e observar se realmente o que você quer neste momento é o desmame, se você também está realmente pronta. Somente indo para dentro é que você poderá sintonizar-se com seu filho e ver de que forma essa mudança vai acontecer na vida de vocês, em que momento. É possível sim que aconteça com mais harmonia, com mais consciência e muito amor. O depoimento da Flávia está aí! Você também pode experimentar isso, confie.

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